terça-feira, 29 de outubro de 2024

 Era a tarde mais longa de todas as tardes


Que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas

Tardavas e eu entardecia

Era tarde, tão tarde, que a boca

Tardando-lhe o beijo, mordia

Quando à boca da noite surgiste

Na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo

Que a boca pedia

E na tarde ficamos unidos ardendo na luz

Que morria

Em nós dois nessa tarde em que tanto

Tardaste o sol amanhecia

Era tarde demais para haver outra noite

Para haver outro dia

Meu amor, meu amor

Minha estrela da tarde

Que o luar te amanheça

E o meu corpo te guarde

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites

Que me adormeceram

Dos noturnos silêncios que à noite

De aromas e beijos se encheram

Foi a noite em que os nossos dois

Corpos cansados não adormeceram

E da estrada mais linda da noite

Uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite

Nos aconteceram

Era o dia da noite de todas as noites

Que nos precederam

Era a noite mais clara daqueles

Que à noite amando se deram

E entre os braços da noite de tanto

Se amarem, vivendo morreram

Meu amor, meu amor

Minha estrela da tarde

Que o luar te amanheça

E o meu corpo te guarde

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria ou se és a tristeza

Meu amor, meu amor

Eu não tenho a certeza

Eu não sei, meu amor, se o que digo

É ternura, se é riso, ou se é pranto

É por ti que adormeço e acordo

E acordado recordo no canto

Essa tarde em que tarde surgiste

Dum triste e profundo recanto

Essa noite em que cedo nasceste despida

De mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo

Para quem se quer tanto"



Estrela Da Tarde

Carlos do Carmo

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