terça-feira, 20 de abril de 2021

 Me dá um pedaço do seu amor? Só um pedaço mesmo


Não te quero inteira não, nem te quero toda, nem demais

Só aquele pedaço tosco, lascado, quebrado, fodido, moído

Caído no chão, joelho ralado, doído

O pior pedaço não, nem o mais desimportante

Que isso ia ser te pedir o melhor do avesso

Mas de melhor num quero nada

Até porque eu não tenho nada muito bom pra dar

Então me dá, se quiser, um pedaço do seu coração

Um espaço, uma brecha, uma fenda, um vão, um caco

Um caco de alguma vez que ele foi quebrado

Mas que cê nem lembra mais direito como, quando

Por quem mesmo?

É esse que eu quero

Dá pra mim esse caquinho, essa lasca, essa ruína meio gasta

Mas não velha demais que a gente possa dizer arqueologia

Nem nova demais a ponto de não ser quinquilharia

Esse caco que você jamais pensaria

Que alguém quereria pra uma coisa qualquer

Ou que valesse um poema sequer, esse retalho eu quero

Pra juntar com qualquer retalho do meu coração remendado

Embaixo de um dia besta de sol

Só colocar um do lado do outro, assim

Paradinho embaixo do sol do meio-dia

Pra deixar ainda mais banal

O zênite da mediocridade cotidiana

Do sol no meio do céu, embaixo do dia

E depois sentar pra observar como tudo, tudo mesmo

Qualquer coisa brilha sob o sol

Até um caco tosco de vidro coronário meio arranhado

Que nem a maré das lascas do meu coração

O dicionário vai chamar essa coisa pouca

Boba, pequena, comum, banal, simples, tola de amor

Os satélites, os drones, a NASA, lá do alto

Vão ver essa coisa brilhar

Fragmentos do que a gente é buscando rejunte

E até as retinas que olharem

Vão quase se manchar desse brilho fosco também

Mas de tão brilho que vai ser esse sol

Esses cacos, esse encontro, a calçada suja onde os cacos deita

A plantinha nascendo no craquelado, o concreto, a rotina

O gosto de sal do suor escorrendo pela testa

O dia quase vai deixar de ser igual por um instante ou quase

E partilhar um segundo fundo assim

É quase se dar inteira pra alguém hoje em dia

Do jeito que as coisas andam tão quebradas, né?"


Lençóis

Luedji Luna, Tatiana Nascimento

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