"Carnaval. Não era Carnaval. Carnaval era o seu nome. Não o dele, que assistia a aula, mas o dela que a ministrava. Sentiu uma tensão diferente naquele dia, não era mais a cotidiana repressão, mas o seu o oposto, tenso. Normalmente, Carnaval vestia-se impecavelmente com roupas que furtavam-lhe o corpo, os cabelos sempre presos por um lápis em um coque sério no topo de sua cabeça e uns óculos que conferiam-lhe um ar intelectual e inacessível. Todo o conjunto negava-lhe o que o seu nome ofertava-lhe, inato: os prazeres da carne. Hoje, tudo mudara. Carnaval entrara na sala aula como um vento forte soprando os narizes com um aroma lascivo, agridoce e inebriante. Os cabelos soltos lambiam-lhe sensualmente os ombros e os óculos, os mesmos de sempre, agora maliciosos, repousavam sexys sobre seu nariz, isolando, parcamente, o calor do desejo que, surpreendentemente, emanava de seus olhos. Aprumou-se na cadeira, aguçou a atenção que normalmente perdia-se em quinze minutos de aula, mas que hoje aumentava a cada um que passava. Tudo o convidava, a matéria, seus pés em saltos altos e passadas firmes, suas pernas cobertas por uma saia curta, a ausência de meia calças e uma camisa social amarrada nas costelas, abotoada apenas o suficiente para não deixar seus seios à mostra, combinando com o resto do conjunto. Era como se uma outra mulher, mas a mesma que ontem ministrara a lição de todos os dias, a tivesse possuído. Olhou a sua volta, notou que todos perceberam a mudança, mas apenas as estéticas. As meninas, invejosas da beleza revelada, criticavam sua forma de vestir. Os rapazes, desejosos, não desprendiam a atenção da aula ou de quem a ministrava. Contudo, ninguém percebera a sua nova atitude, o desejo em seus olhos, a firmeza de seus passos e a confiança em sua presença. Enfim, uma nova persona ali se apresentava apenas para ele. Não queria perder nada, portanto, acompanhava cada passo, a cada movimento e a cada palavra da Professora Carnaval. Sua atenção era agora dela, que percebendo a possessão, aumentava o seu desejo. Ela caminhava decidida, como uma tigresa preparando-se para atacar a sua presa e, esta, era ele. Ela o olhava discreta e intensamente, de forma que ninguém percebesse e, para que não houvesse dúvidas de que ele era o seu alvo. Hipnotizado pela troca de olhares, não conseguia mais distinguir suas palavras, todas pareciam transmitir duas mensagens simultaneas: uma acadêmica e outra sedutora, envolvendo-o em um jogo de palavras e interpretação, de ensino e de atração. O calor de seus olhos fazia-o suar, apesar do condicionamento da sala, suava o suor do desejo que prendia-lhe ao objeto de sua atenção. Ela andava de lá para cá e de cá para lá, daqui para acolá e, tanto fizesse onde fosse, seus olhos iam atrás como imãs atraídos em um magnetismo sensual. De repente, parou, sentou-se à mesa à sua frente sobre um tablado, que elevava a sua altura uns trinta centímentros. Parou, sentou e cruzou as pernas. Ficou assim por treze minutos, aferiu no relógio, sem se mexer, falando palavras dúbias que tanto filosofavam, quanto o provocavam. O jogo da sedução em seu ápice. Seria o climax? Ainda não. Quando o foco de todos foi estrategicamente movido por Carnaval para o fundo da sala, e, todos, menos ele, olhavam a aluna mais aplicada da turma responder a difícil questão proposta, Carnaval, cuidadosamente, descruzou suas pernas mantendo-as fechadas, para em seguida abri-las e fechá-las calma e lentamente, para desnudar a renda branca que cobria-lhe o sexo. Victoria’s Secret? Possivelmente. Importava? Não. Ela repetiu o movimento mais quatro vezes durante a explanação de sua colega. Estava duro, não atrevia-se mexer um músculo sequer, estavam todos tesos e tensos, seus sentidos tão aguçados que juraria sentir o cheiro de Carnaval, o segredo revelado, uma mistura refrescante de gengibre, limão e mel. Pareceu não querer dividir o palco com a aluna, assim, logo que possível, tomou-lhe a palavra e a atenção. Levantou-se e retomou a rotina do daqui para lá, de lá para cá, daqui para acolá, da ambiguidade, da sedução, da filosofia. Perdido, assim estava, na trama tecida por aquela que julgava inocente, inofensiva, mas que agora, mostrava o quão afiadas eram suas garras. De acolá, ela, falando macio, caminhou em sua direção parando imediatamente ao seu lado. Não olhou para ele, apenas parou, sua perna tocando a dele, e assim ficou, carne na carne, em pé, falando, falando, falando... Febril, seu sangue circulava a cada batida forte e cadenciada de seu coração que podiam ser ouvidas do outro lado da sala. Será que percebiam o seu desejo? Poderiam vê-lo? Vergonha, vermelho. Não eram mais os minutos que passavam, sentia os segundos, via-os passar em camera lenta, distorcendo tudo a sua volta, o som, a luz, o tempo, o agora. Acordou, não sabe quando, como, ou porque. Seus amigos o cutucava, chamando-o para a próxima aula. Procurou Carnaval, mas não a viu em lugar algum, observou à sua volta, nada de extraordinário, o de sempre. Sem pensar, guardou suas coisas, levantou-se e partiu."
Fabio Ruiz
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
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